Felicidade e o descanso sagrado

7 tipos de descanso que precisamos.

É possível estar feliz e cansado? Eu penso que sim, e para isso, tenho por base em realidades simples que já vivenciei e/ou vejo acontecer muito. Pergunte a um profissional que entregou um trabalho muito importante, que é parte de sua missão de vida, como escrever um livro, um evento bem realizado, uma obra ou cirurgia bem sucedida, que salvou a vida de uma pessoa, se ele está feliz, e a resposta será sim. Pergunte à mãe de um bebê se ela está feliz e, na maior parte das vezes, a resposta será sim. Mas qual mãe de bebê não está cansada, minimamente por falta de sono?

Já ouvi e já disse essa frase algumas vezes: Estou cansada, mas feliz!

Citei momentos específicos de realização pessoal e forte carga emocional, mas o fato é que, de modo geral, não é fácil ser feliz cansado, em especial se esse cansaço não vem de algo que tenha sentido e significado na sua vida ou se você ultrapassou seus limites físicos, mentais ou emocionais. E aqui é o ponto que muitos de nós chegamos em algum ou alguns momentos da vida.

Na ciência, a felicidade é um bem-estar subjetivo, mas é algo pelo qual podemos assumir a responsabilidade e estamos avançando muito nas formas de deixá-la mais palpável e medi-la. Como habilidade que é, a felicidade pode e deve ser deliberadamente “treinada”. Como falamos aqui no Círculo Escola, coerência e consistência ao longo do tempo é que vão trazer a confiança necessária para qualquer experiência. Uma ideia não muito diferente do que diz Sonja Lyumbomirsky, Professora da Universidade da Califórnia (EUA): “Mudanças duradouras requerem esforço e comprometimento todos os dias de nossa vida”. Sonja é uma das principais referências científicas no estudo da felicidade e criou uma definição (construto científico) de felicidade mais utilizado atualmente.

Certo, mas onde quero chegar com esse papo de cansaço e descanso sagrado? Quero chegar ao ponto de que isso é muito mais complexo do que imaginamos e, muitas vezes, nem sabemos identificar qual nosso cansaço, muito menos o melhor tipo de descanso para ele.

A Dra. Saundra Dalton-Smith, médica psiquiatra norte-americana, nos ajuda muito nesse sentido, com seu livro Sacred Rest: Recover Your Life, Renew Your Energy, Restore Your Sanity (Descanso Sagrado: Recupere sua vida, renove sua energia, restaure sua sanidade – em tradução livre), infelizmente, ainda sem uma edição em português. Uma mulher, médica, cientista, mãe, esposa e tantos outros papéis, que passou por um burnout e fez dele um aprendizado e bênção em sua vida. Veja o que ela diz sobre o descanso:

“O descanso não é simplesmente apertar o botão de pausa em seu dia. (…) O descanso é sobre reabastecer, restaurar, renovar, recuperar, reconstruir, regenerar, reestruturar e reparar, palavras que começam com o prefixo re- porque exige que voltemos a um estado anterior. É uma segunda chance. É uma oportunidade para colocar em ordem qualquer coisa que tenha mudado seu alinhamento com o de Deus.” (Sacred Rest: Recover Your Life, Renew Your Energy, Restore Your Sanity – Dra. Saundra Dalton-Smith)

Ela uniu experiência, ciência e sua espiritualidade e definiu 7 tipos de descanso que precisamos:

✅Descanso físico
É dividido em ativo e passivo. O descanso ativo inclui atividades como alongamento, yoga, exercícios respiratórios, banhos de imersão, caminhadas e até oração. Já o passivo, seria o sono, porque não é uma opção ou escolha, nosso corpo precisa de sono para se manter vivo. Isso explica porque muitas vezes 12h seguidas de sono não resolve todo seu cansaço físico, pois você está apenas atendendo a uma necessidade biológica, essencial, porém passiva.

✅Descanso Mental
O descanso mental envolve abandonar o fluxo constante de pensamentos que entram e saem da sua mente e obter uma sensação de quietude cerebral. Exige que sua mente baixe a guarda, mas Dra. Saundra alerta, não há solução rápida para um déficit de repouso mental crônico. Algumas indicações para descanso mental são: criar pequenas pausas do seu dia a dia, a cada duas horas, por exemplo, para tomar consciência do presente; meditação (qualquer técnica) e criar seu santuário mental, que é pensar em coisas que te façam bem, levar sua mente para esses “locais/momentos” sagrados para você sempre que precisar.

✅Descanso Sensorial
Somos constantemente bombardeados de estímulos sensoriais: telas, luzes, barulhos, conversas, notificações no celular. Como isso já é parte de nossa rotina, é difícil identificar essa necessidade de descanso. Para isso, ela sugere observar se você está com sensibilidade a sons altos, tem tido visão turva, pressão nos olhos, fadiga constante, não sente aromas naturais facilmente e acha que comidas saudáveis não têm gosto ou se incomoda ao ser tocado pelos outros. Para tudo isso, a melhor forma de descansar é intencionalmente poupar seus sentidos de telas, luzes e barulhos regularmente.

✅Descanso Criativo
Se seu dia-a-dia exige que você pense fora da caixa, estará mais propenso a ter esse déficit. Escritores, músicos, trabalhos com altas exigências em criatividade precisam de maiores períodos de descanso criativo. Mas atenção, é errado achar que esse descanso é apenas para pessoas que usam criatividade diariamente ou que a pausa vai resultar em um trabalho de criatividade como arte, poesia ou música. “O descanso criativo não se trata de colocar uma exigência em sua capacidade criativa; isso não é descanso, isso é trabalho. É o oposto.” A dica é, apenas libere-se de criar.

✅Descanso Emocional
“As emoções são semelhantes às infecções; elas são altamente contagiosas”, afirma a Dra. Sandra. Você está em déficit emocional quando sente a necessidade de atender as expectativas de todos a sua volta e experimenta descanso emocional quando não sente mais essa necessidade. É o equilíbrio entre dar e receber. Para isso, é importante exercitar estar consciente de suas emoções, que pode ser por meio de terapia, evitar comparações e aceitar sua vulnerabilidade.

✅Descanso Social
O descanso social é quando encontramos conforto em nossas relações e interações sociais. É a capacidade de encontrar consolo no outro. Mas Dra. lembra: “Sua rede social pode ter milhares de amigos ou seguidores. No entanto, são as poucas pessoas que o conhecem intimamente que terão maior efeito em seu descanso social”.

✅Descanso Espiritual
Podemos identificar a falta desse descanso quando nos sentimos desconectados de algo maior, sem pertencimento, amor, propósito e aceitação. Esse descanso pode ser praticado no contexto religioso/espiritual, durante meditações ou fazendo trabalhos voluntários.

Deixei o descanso espiritual por último para destacar um ponto interessante desse livro. A Dra. Saundra é uma pessoa de muita fé e praticante de sua religião, que tem base na Bíblia cristã. No livro, ela relata muito de sua conexão com Deus e como isso pode estar alinhado com a ciência que pratica na profissão:

“Estudos demonstraram que a oração e a meditação afetam o cérebro da mesma forma que ter uma conversa com uma pessoa. Esses estudos sugerem que as atividades religiosas criam experiências neurológicas reais dentro de nós, tão reais como se Deus existisse tangivelmente de uma forma que possamos tocar e sentir. Nossas conversas com Deus imprimem em nossas memórias como se estivéssemos conversando com Ele no jardim.” (Sacred Rest: Recover Your Life, Renew Your Energy, Restore Your Sanity – Dra. Saundra Dalton-Smith)

No Círculo Escola falamos em livres pensadores espiritualizados, pois entendemos que a espiritualidade está para além dos dogmas religiosos e é um caminho de maior liberdade filosófica. Mas, a Dra. Sandra e sua história são exemplos de que a fé religiosa também pode ser libertadora, desde que consciente de que somos todos UM. Ideia que parece nova, mas já é trazida por muita gente, como ela mesma cita no livro, a fala do cientista britânico e ganhador do Prêmio Nobel, William Bragg (1862-1942), para nos fazer refletir:

“Às vezes, as pessoas perguntam se a religião e a ciência são opostas. Elas são, no sentido de que o polegar e o dedo da minha mão são opostos um ao outro. É uma oposição por meio da qual tudo pode ser compreendido”.

No próximo texto seguiremos essa trilha…

Até mais!
Grazi Gotardo


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