Felicidade é deliberação pessoal?

#essatalfelicidade

No final do último artigo falei que a felicidade medida pelas pesquisas não é a felicidade interna que vem do Eu Superior, essência ou Eu maior. Mas entendo que especialmente para quem é um buscador no caminho do autoconhecimento e espiritualidade isso pode soar um pouco estranho, afinal, a solução não é sempre olhar para dentro e não para fora?

Pois é, no caso do estudo da felicidade com base na ciência que vem sendo lindamente pesquisada por nossos meios acadêmicos, não é bem assim, não apenas isso. Felicidade aqui é um construto, ou seja, um conceito teórico e científico. E, para isso, é preciso olhar para diferentes aspectos do ser humano em sociedade. Daí o motivo do estudo da felicidade envolver psicologia positiva; neurociência; filosofia e economia.

Lembra da pirâmide das necessidades de Maslow? Não é possível começar a falar em felicidade com alguém que não tem os primeiros níveis dela minimamente atendidos, como comida e segurança, por exemplo. Não há emoção ou sentimento positivo que compense a fome, o sono, a falta de um teto, a violência física constante…

A felicidade aqui tem muito mais a ver com o coletivo, pois somos seres sociais em essência. Felicidade é sustentabilidade e equilíbrio. Por isso existe a Economia da Felicidade, que vem trazer esse olhar de suficiência para nossa forma de viver e se relacionar com o ambiente. E aqui fica a dica do documentário A Economia da Felicidade, de 2011, mas ainda tão atual, que fala sobre a forma como estamos utilizando os recursos naturais e econômicos em nosso planeta. Ele está disponível no YouTube:

Disso é que nascem os movimentos para buscar um novo paradigma socioeconômico, muito bem representado pelo sistema Felicidade Interna Bruta – FIB, no Butão, que traz um olhar totalmente sistêmico e coletivo. Mas já existem outras iniciativas parecidas em países como França, Reino Unido, Finlândia, Nova Zelândia e até mesmo Estados Unidos, com o GPI (Genuine Progress Indicator). Pode não parecer, às vezes, mas tem gente já pensando e fazendo a Nova Terra, mesmo que nem conheça esse conceito.

Emoções positivas não são importantes, então? Claro que são!

Aliás, para a neurociência as emoções são neutras, e nós é que damos a elas valência positiva ou valência negativa. Aqui entra um tanto de deliberação pessoal, pois ao identificar ações que geram emoções positivas, você pode agir com esse foco na sua vida. Mas não é receita de bolo, o que serve para você pode não servir para outra pessoa.

E sabemos disso há muito pouco tempo, pois a neurociência fez descobertas como a ressonância magnética, que mostrou que a dor emocional acontece no mesmo lugar da dor física no cérebro. Outro aspecto muito interessante é a neuroplasticidade cerebral – descoberta em 1990 apenas – que diz respeito à capacidade que o cérebro tem de aprender e se reprogramar. Apesar das grandes janelas de aprendizado na infância e adolescência que chegam a uma maturidade por volta dos 25 anos, temos a capacidade de aprender enquanto estivermos vivos, fazendo novas construções neuronais. Ou seja, enquanto existirmos podemos aprender novas formas de sermos felizes.

O fato é que essa tal felicidade é complexa sim, porque nossos tempos são complexos, são muitos fatores a se levar em consideração. O que nada invalida o autoconhecimento e o buscar dentro, afinal como atuar em prol da própria felicidade se não me conheço. Mas a felicidade tal qual desejamos para uma sociedade mais equilibrada e sustentável demanda olharmos para alguns excessos aos quais o século XXI têm nos apresentado.

Um nome da filosofia contemporânea que tem olhado muito para isso a partir da psicossociologia é o de Byung-chul Han, sul-coreano, radicado na Alemanha, autor de inúmeros ensaios que refletem sobre nossa sociedade. Ele diz:

“A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos da obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção”.

E Han vai mais fundo:

“Nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer.” (Sociedade do Cansaço)

Para pensar, não é?

No próximo texto seguiremos essa trilha…

Até mais!
Grazi Gotardo


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