A felicidade como virtude na filosofia

O que refletiram os precursores do pensamento grego e romano sobre a felicidade

Se atualmente a psicologia positiva é a área científica que mais se debruça para entender a felicidade no mundo acadêmico, é devido à filosofia que temos a base desse pensamento. Conhecer o que disseram e refletiram os precursores do pensamento grego e romano sobre a felicidade nos ajuda a construir um alicerce de compreensão do que se produz e se compreende hoje.

Estudar filosofia, aliás, foi outro grato presente que a vida me trouxe nessa jornada do autoconhecimento. Com graduações na área de humanas – Jornalismo e Letras – e uma personalidade mais introspectiva, claro que sempre tive uma inclinação para a reflexão e uma preferência pelas boas perguntas.

E eis que hoje trabalho no Círculo, uma escola de filosofia e espiritualidade. Desde então, “o amor à sabedoria”, definição clássica da palavra filosofia, é um mar que também tenho navegado. Seja nos cursos do Círculo que trazem essa base, como em livros e outras escolas de saberes, como a Nova Acrópole. Por isso, quero destacar minha posição de aprendiz iniciante dessa arte de filosofar. Utilizo aqui muito mais minha habilidade jornalística de fazer uma boa curadoria de conteúdo e assim vamos olhando o que nos traziam os mestres da antiguidade.

O primeiro registro sobre felicidade na filosofia vem da Grécia antiga, com Thales de Mileto. Observe que sua definição coloca o corpo físico em primeiro lugar: “É feliz quem tem corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada.” Thales de Mileto (c.624 — 546 a.C). Depois temos Sócrates, colocando a mente em primeiro lugar ao dizer: “Uma vida que não é pensada, não vale a pena a ser vivida”, Sócrates (470 a.C.-399 a.C.). Não muito diferente de Epicuro, que via na filosofia o caminho para a felicidade. “A filosofia é uma atividade que, por discursos e reflexões, nos proporciona a vida feliz”, Epicuro (341-271 a.C).

Não posso deixar Platão de fora dessa, que aliás refletiu bastante sobre o tema, nos ensinando a trazer as virtudes do mundo das ideias para o mundo dos sentidos. “A função da alma é ser virtuosa e justa, exercendo a virtude e a justiça se obtém a felicidade”, Platão (427 a.c – 347 a.c).

Mas é em seu discípulo, Aristóteles (384a.c – 322 a.c), que a ciência moderna encontra mais elementos para entender essa busca humana. Para ele, podemos ser felizes pelo “daemon (virtude) e pelo arete (excelência)”. “E a virtude das virtudes é a felicidade, o encontro do pensamento e da ação”, Aristóteles. Ao trazer a ideia de uma vida virtuosa pela ação e da busca da felicidade como o maior desejo do ser humano, Aristóteles fez sua contribuição com a palavra Eudaimonia, sendo ela uma das premissas para a felicidade. Abrindo a etimologia de Eudaimonia temos: EU – bem-verdade, bem-estar, qualidade do bem-disposto e DAIMONIA – espírito, gênio, poder divino.

Ainda existem outras traduções ou explicações para Eudaimonia, de acordo com diferentes autores, mas vamos ficar aqui com uma que ressoa muito pra mim e acho que faz sentido com quem tem um olhar espiritualista da existência humana: Eudaimonia – “o que há de divino em mim”.

Entendo que nossa principal missão como seres humanos dotados de cognição é usá-la para evoluir e se tornar cada dia mais ser humano, cumprir o papel que nos cabe nesse pedaço de existência. Mas quando compreendemos que há algo além do que os cinco sentidos podem observar, sabemos também que uma porção de nós está para além do palpável. São tantos os nomes: alma, espírito, eu superior, atma, espírito santo…Então Eudaimonia seria uma vida significativa com o que há de divino em mim.

Mas a filosofia nos aterra com o conceito de hedonia, de Epicuro (341a.c – 271a.c), ou prazeres hedônicos, que são aqueles da vida cotidiana buscados e causados por nós mesmos ou por outros em nós. É a busca da estimulação dos sentidos e emoções como fazer uma viagem, ir a um espetáculo, comer ou fazer qualquer coisa que você goste.

Seria então esse equilíbrio entre Eudaimonia e Hedonia, somados a emoções positivas, que nos faria mais felizes. Parece simples, mas nem tanto. Tem muito mais elementos nessa receita que ainda vamos ver. Entre as definições mais filosóficas sobre felicidade, uma que muito me tocou quando li é de Santo Agostinho: “Felicidade é seguir desejando aquilo que já se possui”. Leio e penso, como é difícil ser simples.

E para deixar uma dica de leitura sobre o tema, sugiro o livro “Sobre a felicidade: Uma viagem Filosófica”, de Frédéric Lenoir.

No próximo texto seguiremos essa trilha…

Até mais!
Grazi Gotardo


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