Positividade: escolha ou risco?

por Grazieli Gotardo

O professor Martin Seligman, um dos fundadores da Psicologia Positiva, se autodenomina um “pessimista de carteirinha” em uma de suas obras. E foi justamente essa visão que o levou a fundar a Psicologia Positiva e estudar o bem-estar humano (Felicidade). Como muitos de nós, ele percebeu o poder do viés negativo na vida humana. Estudos e experiências pessoais comprovam: o negativo nos chama mais atenção, e nossas escolhas são frequentemente guiadas pelo medo, pela aversão ao erro e pela correção contínua.

Desde a infância aprendemos a focar nos problemas, corrigir notas baixas, evitar punições, escapar de riscos. Isso molda nossas atitudes ao longo da vida. A neurociência já explica que o cérebro humano está programado para detectar ameaças, um mecanismo de sobrevivência que nos mantém atentos ao que pode dar errado. Esse viés negativo é, em parte, o que nos torna humanos.

Pesquisas mostram que mesmo após eventos altamente positivos, como ganhar na loteria, a felicidade que experimentamos é temporária. Em pouco tempo, retornamos ao nosso basal emocional: é a chamada “Adaptação Hedônica”.

Como jornalista de formação, observo que a cultura e os meios de comunicação reforçam esse viés. Desde a faculdade, aprendi que as manchetes negativas vendem mais. Não por acaso, o público se interessa pelo sensacionalismo, uma notícia ruim captura atenção. E, mais recentemente, o fenômeno das fake news reforçou isso: somos atraídos por escândalos, falhas e desastres. Mas a Psicologia Positiva propõe e estuda alternativas para essa visão.

Alguns questionam se essa abordagem positiva não corre o risco de se tornar uma “positividade tóxica”. A crítica faz sentido: pode-se transformar a busca pelo bem-estar em uma “terra de Poliana”, onde todos são felizes, ignorando os problemas reais. O equilíbrio, ou o “caminho do meio”, se torna, então, a chave. Esse caminho, trazido muito antes por tradições como o Budismo e a Filosofia, a partir do desenvolvimento de virtudes, não significa ignorar os problemas, mas escolher olhar além deles. A Psicologia Positiva, na sua essência, escolheu olhar TAMBÉM para o que funciona em nós.

O equilíbrio emocional assim não é um estado estático, mas uma prática contínua. Ao enfrentarmos adversidades, temos a chance de ressignificar as experiências, enxergando nelas novas possibilidades. Emoções positivas nos permitem ver melhor entre as opções do caminho e a resiliência nos faz seguir, apesar das adversidades.

A escolha de como olhar para os acontecimentos da vida é libertadora. Essa perspectiva oferece a chance de uma resiliência ativa, que não apaga o sofrimento, mas o transforma em um ponto de partida para novos caminhos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados

Algumas conversas não acontecem apenas entre duas pessoas. Elas parecem atravessadas por algo maior — um campo de sentido, uma inteligência invisível, uma espécie de costura fina entre destino, propósito e serviço. O episódio do Café do Chico com Marcial Conte Jr., editor executivo da Citadel Grupo Editorial, teve exatamente esse sabor.
Há pessoas que trabalham com criatividade. E há pessoas que são atravessadas por ela. No episódio com Silvia Arone, o Café do Chico – Conversas da Alma revelou exatamente isso: a criatividade não como adereço de mercado, nem como técnica de inovação, mas como uma força viva, quase mediúnica, capaz de reposicionar uma existência inteira.
O episódio com Carol Portilho no Café do Chico – Conversas da Alma foi daqueles encontros em que técnica e alma caminham juntas. Conhecida por seu trabalho com códigos da comunicação, linguagem corporal e presença, Carol mostrou que comunicar bem não é apenas dominar ferramentas externas — é, antes de tudo, atravessar o próprio mundo interno.