Resiliência

Reflexões sobre esta palavra engraçada da moda, depois de ter participado do Círculo de Virtudes do Gustavo Tanaka no último 13 de agosto.

Antes de mais nada, o que o dicionário Michaellis diz:

re·si·li·ên·ci·a
sf
1. Elasticidade que faz com que certos corpos deformados voltem à sua forma original.
2. Capacidade de rápida adaptação ou recuperação.

Quando eu tinha uns 12 anos de idade e o real ainda nem existia, meu pai e eu chegamos de viagem numa noite em Assunção. Chovia muito e as ruas tinham se convertido em rios, no que eles chamam de raudal. Estávamos tensos, meu pai em silêncio. De repente, sinto que meus pés estavam úmidos: tinha água pelas canelas. Lembro até hoje da água escorrendo quando abri a porta do carro no momento que conseguimos alcançar um lugar um pouco mais alto.

Chegamos na casa de minha família e estavam todos elevando tudo o que era possível porque a água estava entrando na casa. As cadeiras estavam empilhadas e faziam suporte para os colchões. Eletrodomésticos em cima da mesa. Sem luz, algumas velas e adultos sérios indo de um lado para o outro. Quando tudo estava acomodado, só restou esperar.

Lentamente, a água foi indo embora e, lentamente, a conversa foi retornando. Agora já podíamos nos cumprimentar, o guarani corria solto e com ele vieram as risadas. Explico: o guaraní é uma linguagem figurada, então se você se diverte com piadas de duplo sentido, o guarani é para você. Naquele breu da semi-luz, via como todos puxavam a lama para fora e os dentes que brilhavam no escuro em formas de sorrisos. Estávamos todos bem e só sobravam as piadas das trapalhadas da madrugada

Resiliência é a escolha: eu escolho receber o que acontece com alegria.

Há pessoas que dizem que resiliência é persistência e resistência. Outras que é a força para seguir adiante aguentando o que for. Mas a evolução não acontece somente através da dor.

Para mim, resiliência é como os meus parentes naquela manhãzinha: o sorriso branco que aparece no breu.

Quando passamos por alguma situação de stress (causa), podemos escolher dois caminhos (efeitos): o da depressão ou o da significação. Na depressão perdemos as forças, fugimos, congelamos e nos perguntamos POR QUE isso acontece comigo? Já na significação, assumimos a responsabilidade das nossas vidas, confiamos que estamos no lugar certo e na hora certa e nos perguntamos PARA QUE isso acontece comigo?

Quando eu escolho significar, trazer a vivência para o campo do aprendizado, eu transmuto aquela situação de stress em força criativa e essa força se expressa em alegria. (No caso dos meus parentes, a alegria residiu em que estávamos todos bem, que não houve grandes prejuízos e que todos conseguiram entrar em acordo de executar finalmente a obra para proteger melhor a casa da chuva e sem brigar!!!)

A resiliência é a escolha, eu escolho receber o que acontece com alegria. E escolher essa alegria faz com que eu me adapte às novas circunstâncias feito um peixinho no mar.

Boa e alegre natação a todos!

beijos,
Alicia

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