O que as plantas têm para nos ensinar?

A terra é parte de quem somos.

Ultimamente temos sido bombardeados por notícias e conteúdos relacionados à sustentabilidade, mudanças climáticas, comportamento e o futuro da vida humana. Inclusive, eu mesma já escrevi uma série de artigos sobre veganismo, ecologia e consumo consciente. Mas hoje gostaria de compartilhar algumas ideias que me chamaram a atenção e trouxeram um novo ponto de vista sobre a vida terrestre, e até mesmo extraterrestre.

A Professora Vanessa Lemm, PhD em Filosofia, em uma palestra publicada pela rádio australiana ABC Radio National, questiona: “Podem as plantas nos mostrar como viver em harmonia com o planeta?”. Ela começa seu raciocínio nos lembrando de nossa atual enorme desconexão com a natureza, e que talvez essa seja a chave para muitas perguntas filosóficas. Este artigo será um apanhado das principais ideias, com tradução livre, que a Professora Vanessa explica em sua palestra, e caso você tenha familiaridade com a língua inglesa, vale muito a pena escutá-la por completo.

Vamos primeiro entender as origens dessa falta de empatia com os outros seres vivos. A Professora nos lembra de um dos pais da filosofia moderna, René Descartes (1596-1650), autor da famosa frase “Eu penso, logo existo”. Descartes ajudou a construir um mundo baseado na dedução e experimentação de tudo o que é externo ao homem, portanto, fomos capazes de reconstruir as leis da natureza. Assim, o mundo começou a ser visto através do racionalismo, que se dedicou a estudar e dominar as leis terrenas, com o objetivo de criar poderosas tecnologias para usufruir o que a terra podia nos oferecer. Seria ironia do destino Descartes também ser um grande estudioso de Deus?

Seus estudos materializaram e chancelaram o que estava escrito em Gênesis 1:28 “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra.”. Há quem diga que foi a partir daí que se criaram as raízes dos nossos atuais problemas ambientais, pois a conexão de Descartes entre a religião e ciência moderna legitimou o comportamento exploratório.

Foi apenas com os filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre (1905-1980) que o pensamento em torno da existência humana na Terra começou a se modificar. “Eu existo, logo eu sou”. Para Sartre, o que nos distingue dos outros seres é a nossa capacidade de projetar a possibilidade de nossa existência. Nós damos sentido à vida, nossa existência afeta o nosso entorno, portanto, somos responsáveis pelo nosso entorno.

Porém, a visão existencialista de Sartre também muito negligenciou a biodiversidade. Isso nos leva ao conceito de “plant blindness”, ou “cegueira de plantas”, estabelecido em meados da década de 1990, para definir a inabilidade de notar a importância das plantas para a vida humana. Durante muito tempo, os estudos humanos deram pouco, ou nenhum, valor à flora e fauna, não compreendendo a sua conectividade.

99% da Terra é formada por biomassa e, graças a isso, é possível produzir uma atmosfera que torna a vida possível para a vasta maioria das espécies. Do ponto de vista existencialista, somos tanto nós quanto o meio ambiente que nos cerca, sendo capazes de modificar a experiência da vida e dar um significado para a falta de sentido existencial.

Assim, a Professora Lemm sugere que nós precisamos mudar a forma como pensamos a respeito do nosso lugar na ordem natural das coisas e aprender com as plantas sobre a nossa responsabilidade diante do planeta. Você sabia que a etimologia da palavra “humano”, do latim humanus, vem de homo (homem) e húmus (terra)? A terra é parte de quem somos.

O ponto chave do estudo contemporâneo da vida das plantas é justamente ir adiante dos ambientes artificiais que vivemos e nos conectar com o desconhecido. Se desejamos compreender o significado da existência humana, é fundamental interrogarmos as plantas. Aristóteles acreditava que os humanos também possuem raízes, porém com seu crescimento para cima, em vez de para baixo. Em certa medida, também somos plantas.

Para Nietzsche, a principal responsabilidade das futuras gerações de filósofos é cuidar da Terra, através da ética do cuidado, nos reconectando com a natureza. E isso requer cultivar respeito e cuidado pelos humanos e não humanos, incluindo até novas formas de nos comunicarmos. Falando sem usar palavras e escutando sem ouvir algo concreto. Portanto, nos relacionar com a natureza à nossa volta pode nos trazer insights sobre a nossa real existência.

Na segunda parte desse artigo vou trazer mais reflexões sobre plantas, galáxias e filosofia.

2 respostas

  1. Amei esse artigo, tem tudo a ver comigo que sempre amei o contato com as plantas desde muito nova. Gostaria de me aprofundar mais no assunto e ou esperar ansiosa pela segunda parte do artigo. Grata Eu sou!

    1. ahhhh que bom que gostou <3 Quando escutei essa palestra da Dra Vanessa achei incrível e quis compartilhar o conteúdo. Em breve sai a segunda parte! Abraço

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados

por Grazieli Gotardo