Psicossomatização: quando o corpo expressa o que a consciência evita

A psicossomatização não significa que uma doença seja “imaginação” ou “fraqueza emocional”. Pelo contrário: trata-se de um processo fisiológico real

Durante muito tempo, a medicina tratou a psicossomatização como um tema periférico — quase um território incômodo entre o “orgânico” e o “emocional”. Hoje, no entanto, um conjunto robusto de pesquisas científicas indica que essa separação nunca foi real. O corpo humano responde de forma integrada aos estados emocionais, mentais e relacionais, traduzindo em sintomas aquilo que não encontrou elaboração consciente.

A psicossomatização não significa que uma doença seja “imaginação” ou “fraqueza emocional”. Pelo contrário: trata-se de um processo fisiológico real, no qual emoções persistentes, conflitos internos e estados de estresse prolongado influenciam diretamente sistemas como o nervoso, o endócrino e o imunológico. É o que demonstra a psiconeuroimunologia, campo científico que estuda a comunicação constante entre mente e corpo, amplamente documentado em pesquisas de universidades como Harvard e Stanford.

Estudos publicados pela American Psychological Association mostram que a supressão emocional está associada ao aumento de cortisol e de marcadores inflamatórios, fatores diretamente ligados ao desenvolvimento de doenças crônicas. Emoções não reconhecidas não desaparecem: elas se reorganizam no corpo, alterando o funcionamento orgânico ao longo do tempo. Nesse sentido, o sintoma deixa de ser um erro e passa a ser um sinal adaptativo — uma tentativa do organismo de restaurar equilíbrio.

O psiquiatra e pesquisador Bessel van der Kolk, referência mundial no estudo do trauma, demonstrou que experiências emocionais não elaboradas permanecem registradas no corpo, mesmo quando não há memória consciente clara. O organismo “se lembra” daquilo que a mente tentou esquecer. A psicossomatização, portanto, não é um evento isolado, mas um processo cumulativo, silencioso e coerente com a história emocional de cada indivíduo.

Apesar desse conhecimento, o modelo de saúde dominante ainda insiste em tratar sintomas de forma fragmentada, frequentemente sem investigar o contexto emocional, relacional e existencial em que eles surgem. O resultado é um ciclo recorrente: tratamento pontual, alívio temporário e retorno do desequilíbrio em novas formas.

Compreender a psicossomatização exige um deslocamento de olhar. Não se trata de buscar culpados internos, mas de desenvolver responsabilidade consciente. Quando o indivíduo passa a reconhecer os vínculos entre suas emoções, padrões de vida e manifestações corporais, abre-se espaço para intervenções mais profundas e duradouras. O corpo deixa de ser campo de batalha e passa a ser fonte legítima de informação.

Repensar a psicossomatização é reconhecer que a saúde não se sustenta apenas na ausência de doença, mas na capacidade de escutar, integrar e transformar aquilo que o corpo expressa antes que precise gritar.


🔎 Fontes e referências :

  • Ader, R., Cohen, N., Felten, D. – Psychoneuroimmunology
  • American Psychological Association – Estudos sobre estresse e inflamação
  • Harvard Medical School – Mind-Body Research
  • Stanford University – James J. Gross, Emotional Regulation
  • Van der Kolk, B. – The Body Keeps the Score

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