Felipe Savietto no Café do Chico: viajar, perder verdades e aprender a escutar a vida

No episódio com Felipe Savietto, o Café do Chico – Conversas da Alma ganhou o tom das travessias que não acontecem apenas no mapa. Psicólogo e mochileiro por escolha, Felipe trouxe uma conversa sobre deslocamento, identidade, escuta e coragem — dessas que não cabem num roteiro turístico, porque falam de jornadas interiores.

No episódio com Felipe Savietto, o Café do Chico – Conversas da Alma ganhou o tom das travessias que não acontecem apenas no mapa. Psicólogo e mochileiro por escolha, Felipe trouxe uma conversa sobre deslocamento, identidade, escuta e coragem — dessas que não cabem num roteiro turístico, porque falam de jornadas interiores.

Logo no início, uma ideia organiza toda a entrevista: há coisas que escolhemos e há coisas que, de algum modo, nos escolhem. Felipe reconhece que a psicologia talvez tenha sido um caminho ao qual respondeu, mas o mochilão foi decisão deliberada. E essa distinção é preciosa. Em vez de romantizar tudo como destino, ele mostra que a vida também exige ato, risco e vontade. Em determinado momento, percebeu que olhava para pessoas viajando pelo mundo com uma espécie de inveja reveladora — não inveja destrutiva, mas aquela que denuncia onde a alma quer ir. Ali havia um espelho. Alguém estava vivendo uma vida que ele também queria experimentar.

Essa escolha, no entanto, não veio sem preço. Havia o consultório tradicional, a previsibilidade profissional, o medo de perder pacientes e o receio de que a própria liberdade comprometesse a credibilidade do trabalho clínico. O mais bonito da conversa é justamente ver como essa fantasia foi sendo desmontada. Ao sustentar a própria verdade sem disfarces, Felipe descobriu que a autenticidade não afastou as pessoas — ao contrário, criou um espaço mais real. O terapeuta que atendia da Lituânia, da Ásia ou de qualquer outro lugar do mundo continuava sendo o mesmo ser humano comprometido com a escuta.

Mas talvez o ponto mais forte do episódio seja quando ele fala do que precisou perder para se encontrar: as próprias verdades. Durante muito tempo, uma estrutura religiosa organizou sua percepção do mundo, do certo e do errado, do caminho e do sentido. Romper com isso não foi libertação instantânea; foi queda, vertigem, luto e ausência de chão. E é justamente aí que a entrevista toca algo universal. Todo ser humano, em algum momento, precisa perceber que há verdades que foram apenas narrativas herdadas. E desfazer essa confusão entre verdade absoluta e narrativa provisória talvez seja uma das experiências mais dolorosas — e mais libertadoras — da maturidade.

Felipe não aparece como alguém que trocou uma certeza por outra. O que ele construiu foi algo mais sutil: a capacidade de viver entre narrativas sem precisar absolutizá-las. Essa abertura revela uma espiritualidade mais humilde, mais porosa, menos dogmática e mais atenta à experiência.

As viagens entram nisso não como fuga, mas como escola de relativização do ego. Estar em quase 70 países não significa colecionar bandeiras, mas encontrar outras formas de viver, de rezar, de tocar o corpo, de organizar o espaço, de compreender o cotidiano. E cada uma dessas experiências vai corroendo a fantasia de que o próprio jeito de viver é o jeito certo, natural ou universal.

No fim, a conversa deixa uma impressão muito bonita: a de que amadurecer não é acumular respostas, mas aprender a escutar melhor. Escutar o outro. Escutar o corpo. Escutar o que ainda não ganhou voz dentro de nós. Escutar até aquilo que ameaça desorganizar a identidade que construímos.

Talvez por isso esse episódio seja tão precioso. Porque ele não oferece uma fórmula de cura, nem uma estética pronta de autoconhecimento. Ele oferece algo mais raro: a honestidade de quem segue caminhando sem precisar fingir que já chegou.

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