Algumas conversas não acontecem apenas entre duas pessoas. Elas parecem atravessadas por algo maior — um campo de sentido, uma inteligência invisível, uma espécie de costura fina entre destino, propósito e serviço. O episódio do Café do Chico com Marcial Conte Jr., fundador da Citadel Grupo Editorial, teve exatamente esse sabor.
Mais do que editor, Marcial aparece na conversa como alguém que entendeu o livro não apenas como produto, mas como portal. E talvez esse seja um dos grandes eixos do encontro: a compreensão de que publicar não é simplesmente colocar papel no mundo, mas materializar ideias que podem transformar consciências, reorganizar vidas e abrir janelas interiores em quem lê.

Ao longo do episódio, ele revisita o início da Citadel, ainda pequena, quase improvável, e o caminho que a levou a se tornar uma das editoras mais relevantes do país. Mas o tom da conversa não é empresarial no sentido frio da palavra. O que aparece o tempo todo é outra coisa: entusiasmo, teimosia, resiliência, visão e uma confiança quase mística no valor daquilo que precisa ser feito.
Em certo momento, Marcial resume de forma brutalmente honesta o que, para ele, explica essa trajetória: “estupidez”. Não como burrice, mas como aquela insistência que o mundo frequentemente chama de teimosia antes de chamar de sucesso. E aí surge uma pergunta central da conversa: onde termina a resiliência e começa a estupidez? A resposta não vem em fórmula, mas em direção. Quando aquilo que se busca tem valor real, quando o propósito é claro e quando existe disposição para sustentar o tranco, talvez não caiba medir demais. Há caminhos que só se revelam a quem insiste.
Esse ponto conversa diretamente com uma das marcas mais fortes do episódio: a noção de que estamos, todos, a serviço. Não como retórica espiritual vazia, mas como posição existencial. Para Marcial, servir é publicar livros que importam, apostar em ideias transformadoras, sustentar autores, abrir espaço para mensagens que precisam circular. E essa visão muda completamente o eixo da realização. O foco deixa de ser ego, status ou vaidade e passa a ser utilidade, impacto, transmissão.
Talvez por isso um dos momentos mais bonitos da conversa aconteça quando ele fala sobre o pai. Ao lembrar da confiança recebida ainda na infância, Marcial toca num ponto essencial: ninguém constrói algo duradouro sem, em algum momento, ter recebido de alguém a transferência de uma fé. Alguém que olhou e disse, mesmo sem garantias: “vai dar”. Esse tipo de confiança plantada cedo parece ter se tornado, nele, uma força motriz.
Outro tema forte do episódio é a pobreza. Não romantizada, mas compreendida como escola. Ao refletir sobre suficiência, Marcial toca numa verdade desconfortável para o imaginário contemporâneo: a abundância real não está necessariamente em ter mais, mas em precisar de menos. Em um mundo obcecado por acúmulo, performance e escala, a conversa devolve uma medida espiritual da riqueza: serenidade, presença e gratidão pelo essencial.
Há também algo muito vivo em sua forma de enxergar o mercado editorial: os livros não são fins em si mesmos. São meios. Meios de tocar pessoas, de provocar pensamento, de gerar deslocamentos internos. Nesse sentido, a editora deixa de ser apenas empresa e passa a funcionar quase como um organismo de serviço cultural e espiritual. Não importa se o autor é bilionário, sacerdote, filósofo, terapeuta ou comunicador: o que importa é se aquela mensagem carrega potência de transformação.
O episódio inteiro parece girar em torno dessa pergunta silenciosa: o que você está colocando no mundo e a serviço de quê?
No caso de Marcial, a resposta é clara. Ele está a serviço das ideias que acordam, deslocam e acendem. Está a serviço de livros que não apenas informam, mas reorganizam. Está a serviço de uma espécie de coragem editorial que não tem medo de juntar mercado, espiritualidade, inteligência prática e profundidade.
E talvez seja isso que torne essa conversa tão importante.
Porque, num tempo em que tanta gente confunde visibilidade com relevância, Marcial lembra que o mais importante ainda é aquilo que permanece depois do aplauso: a ideia que fica, a consciência que muda, a vida que reencontra direção.
No fim, fica uma frase que poderia resumir não só o episódio, mas também uma ética inteira de vida:
Estamos a serviço.
E talvez amadurecer seja justamente isso: descobrir onde, como e para quem a nossa presença pode ser útil.





