No encontro com Lucas Aldi e Soliris Longo, criadores da Tribe Zen, o Café do Chico revelou algo precioso: há uma diferença enorme entre falar sobre autoconhecimento e realmente fazer dele uma forma de viver. E talvez seja justamente essa a força do trabalho que os dois vêm construindo nos últimos anos.

Ao longo da conversa, o que aparece não é apenas a história de um podcast que alcançou a marca de 200 episódios, mas a trajetória de um movimento que foi crescendo junto com a própria maturidade de seus criadores. O que começou como um impulso de compartilhar descobertas, aprendizados e inquietações espirituais foi, aos poucos, se tornando comunidade, estilo de vida, empresa e campo de encontro. E esse processo aconteceu sem fórmulas prontas, sem um grande plano fechado, mas com algo que a dupla parece cultivar muito bem: escuta.
Em vários momentos da entrevista, fica claro que a Tribe Zen deixou de ser apenas “um projeto” para se tornar uma espécie de organismo vivo, que também orienta seus próprios caminhos. Há, nisso, uma percepção muito interessante: nem sempre somos apenas nós que conduzimos aquilo que criamos; às vezes, o que criamos também começa a nos pedir certas formas, certas escolhas, certas responsabilidades. E essa escuta, no caso deles, exigiu abandonar fantasias, rever expectativas e aceitar que amadurecer também faz parte do caminho espiritual.
Esse amadurecimento aparece de forma muito nítida quando Lucas e Sol falam sobre a transição de um ideal mais nômade, leve e improvisado para uma vida com mais estrutura, mais raiz e mais compromisso. A imagem do casal viajando sem grandes amarras deu lugar à construção de base, estúdio, rotina, empresa e consistência. Longe de significar perda de liberdade, esse movimento parece ter revelado outra coisa: a de que propósito também precisa de forma para florescer.

A entrevista toca ainda num ponto central para quem trabalha com espiritualidade hoje: a relação entre sentido e sustento. Em vez de reproduzir a velha oposição entre vida espiritual e vida material, Lucas e Sol apontam para uma integração cada vez mais necessária. O trabalho deles não deixa de ser espiritual por ter CNPJ, pagar imposto ou exigir organização. Ao contrário: a espiritualidade ganha corpo quando desce para a matéria com ética, coerência e responsabilidade. Não como idealização, mas como presença concreta no mundo.
Há também um trecho especialmente bonito quando Sol resgata um ensinamento da mãe: “conhecimento não é pra ficar guardado”. A frase simples acaba se tornando uma chave para entender toda a proposta da Tribe Zen. O conhecimento, quando acumulado e não compartilhado, perde vitalidade. Ele precisa circular, ser experimentado, ser dito, virar ponte. E talvez uma das grandes virtudes do casal esteja justamente nisso: traduzir temas complexos de forma acessível, humana e sensível, sem empobrecer a profundidade do que está sendo transmitido.
Outro aspecto que atravessa a conversa é a tensão entre o coletivo e o individual. Se, num primeiro momento, a ideia de comunidade aparecia quase como antídoto para os desencontros da vida familiar e para a necessidade de pertencimento, com o tempo também foi surgindo a consciência de que o caminho interior exige espaço, silêncio e individuação. A maturidade espiritual, nesse sentido, não é viver o tempo todo misturado ao outro, mas aprender a alternar presença compartilhada e presença consigo mesmo.
O episódio também oferece momentos delicados e simbólicos quando fala do sagrado no cotidiano. Para Sol, ele aparece na cozinha, no ato de preparar o alimento, no cuidado silencioso com o que será oferecido. Para Lucas, surge no sono, no trabalho, nos rituais simples que devolvem intenção ao que poderia ser apenas repetição automática. É uma visão que desmonta a ideia de que o espiritual acontece apenas em experiências extraordinárias. O sagrado, ali, não está fora da vida — está incrustado no ordinário, esperando atenção.
No fundo, a conversa com a Tribe Zen devolve ao autoconhecimento a sua dignidade mais simples: ele não é performance, nem coleção de conceitos, nem um verniz bonito sobre a existência. É prática. É relação. É escuta. É correção de rota. É integração entre dentro e fora.
E talvez por isso o episódio tenha tanta força. Porque não fala de uma espiritualidade abstrata, mas de uma espiritualidade encarnada — que ama, erra, empreende, amadurece, se reorganiza e continua aprendendo.
Num tempo em que tanta gente transforma o despertar em vitrine, Lucas e Sol parecem apontar para outra direção: menos pose, mais presença; menos discurso, mais coerência; menos fórmula, mais caminho.
E isso, por si só, já é um ensinamento valioso.




