A violência que existe em mim

Por que os casos de violência e injustiça mexem tanto com o sentimento coletivo? A violência contra um ser vulnerável ativa algo profundo: a sensação de injustiça absoluta, a quebra de um pacto básico de humanidade.

Os recentes episódios de violência contra o cachorro Orelha atravessaram as redes como um choque elétrico. Em poucas horas, a indignação se espalhou, acompanhada de um coro uníssono por justiça — e, em muitos casos, por punição exemplar, linchamento simbólico, vingança.

Não é difícil entender o impacto emocional. A violência contra um ser vulnerável ativa algo profundo: a sensação de injustiça absoluta, a quebra de um pacto básico de humanidade. Mas talvez seja justamente aí que reside a pergunta mais difícil — e mais necessária:

Por que isso nos afeta tanto?

A resposta não está apenas no ato em si, mas no espelho que ele aciona dentro de nós.

Quando a violência externa nos revolta de forma quase incontrolável, ela costuma tocar algo que já existe internamente. Não falamos aqui de violência explícita, mas de pequenas brutalidades cotidianas: a indiferença, o julgamento apressado, o desejo secreto de punição, a satisfação inconsciente diante da queda do outro. Existe uma violência silenciosa que habita o humano — e que raramente é examinada.

O problema começa quando o brado por justiça nasce não do discernimento, mas da fúria.
Quando a justiça é confundida com revanche, ela deixa de ser justiça e se transforma em explosão emocional coletiva. A história mostra, repetidas vezes, que esse caminho não conduz à reparação, mas ao colapso.

A Alemanha do século XX é um exemplo doloroso. O ressentimento acumulado após a Primeira Guerra Mundial, a humilhação econômica e simbólica, e a incapacidade coletiva de elaborar a própria dor criaram o terreno fértil para um discurso que prometia “justiça” — mas que, na prática, era vingança organizada. O resultado foi um dos maiores retrocessos éticos da humanidade.

Esse padrão se repete em menor escala sempre que acreditamos que a violência pode ser curada com mais violência, que o ódio pode gerar equilíbrio, que a punição sem consciência produz ordem.

Não produz. Nunca produziu.

Margarete Áquila é psicanalista, especialista em neurociência e presidente da Casa do Consolador em São Paulo. Ministra anualmente o curso Autoconhecimento e Espiritualidade
em circuloescola.com

Justiça verdadeira não nasce do impulso, mas do equilíbrio. E equilíbrio não é externo — é interno.

Uma sociedade só consegue regular a violência fora quando aprende a reconhecer, compreender e elaborar a violência dentro. Sem esse trabalho interno, qualquer tentativa de justiça corre o risco de ser apenas a legitimação social da fúria.

Isso não significa passividade, conivência ou silêncio diante da injustiça. Significa algo muito mais exigente: agir sem perder a consciência. Agir sem se deixar capturar pela mesma força que se deseja combater.

O desafio do nosso tempo não é apenas conter a violência, mas compreender suas raízes psíquicas, emocionais e simbólicas. Quando esse trabalho não é feito, a humanidade não avança — ela apenas muda de cenário enquanto repete os mesmos erros.

Por isso, o autoconhecimento deixou de ser um luxo individual ou um interesse espiritual restrito. Ele se tornou uma urgência coletiva. Um mundo que não se conhece está condenado a projetar suas sombras, a criar inimigos externos para não olhar seus conflitos internos.

Sem autoconhecimento, damos passos largos para trás enquanto acreditamos estar avançando.

Olhar para a violência que existe em mim não é um exercício de culpa, mas de responsabilidade. É reconhecer que a justiça que desejo fora só pode existir se for sustentada por um centro interno mais lúcido, mais consciente, mais humano.

Talvez a pergunta que os casos como o do cachorro Orelha nos façam não seja apenas “quem fez isso?”, mas:

o que, em mim, também precisa ser cuidado, compreendido e transformado para que isso não se repita?

Enquanto essa pergunta não for feita, a violência continuará mudando de rosto — mas não de essência.

E a história seguirá tentando nos ensinar a mesma lição, até que estejamos dispostos a aprendê-la.

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